Palavreando #1: Dom Quixote | Miséria Cultural

Compartilhar post

Share on facebook
Share on linkedin
Share on twitter
Share on email

Qual a relação de Dom Quixote com nossa cultura?

A batalha entre Dom Quixote, obra prima de Miguel de Cervantes, e os moinhos de vento é, desde seu início, um duelo perdido para o personagem título da obra seiscentista, o primeiro romance moderno da história. Quixote é um louco sonhador que, de tanto ler livros de cavalaria, sai mundo afora acreditando-se um cavaleiro andante matador de dragões e salvador de donzelas. E eis que se depara com moinhos de vento que julga serem gigantes malfeitores. E lhes dá combate. E perde. Os moinhos são inermes, broncos, toscos e resolutos em girar de maneira impiedosa suas inevitáveis pás que atuam como porretes sobre a saúde já precária e o corpo débil e magricela do nosso herói medieval, prostrando-o de um átimo; como era de se esperar. Para quem valoriza a cultura literária, em nosso país, e batalha por ela, também não há nesta geração qualquer chance de vitória. A batalha pela difusão de nossas letras é, desde o começo, uma batalha perdida para a ignorância e para a pior miséria de todas, que é a miséria cultural.

Por aqui não falamos Português. Ao ouvir o português lusitano, é difícil crermos que estamos diante do mesmo idioma. Para que se tenha uma ideia, novela brasileira em Portugal é dublada ou legendada. Podemos estar falando da mesma língua? Claro que não. Aliás, genericamente não compreendemos nossa própria gramática. Falamos um misto de brasileiro, vagabundês, caipirês e burrês. A televisão é uma fábrica de fazer preguiçosos, causando em nossos jovens um efeito devastador ao longo de décadas de seu predomínio sobre as letras, os livros, os saraus e as conversas saudáveis com gente mais velha e adulta. Então, eis que chega a internet, e com ela as redes sociais e suas discussões vaziam, terminando por sepultar em definitivo qualquer esperança, por mais remota que seja, de recuperar alguma coisa do intelecto e da cultura das novas gerações, porque os jovens brasileiros desaprenderam nossos costumes e nossa história, que deixaram de buscar nos livros. A maioria sequer tenta entender um idioma e uma linguagem que jamais dominara, e que lhe parece um código indecifrável. Perderam-se na cessão gratuita de múltiplas informações que não processam de maneira seletiva, e tampouco adestram seu juízo crítico aferindo a importância, e a veracidade, das notícias que lhes chegam de todo o mundo em milésimos de segundo.

Ou seja, o jovem brasileiro, que já lia muito pouco, agora também não conhece o mundo ao seu redor e tampouco pensa criticamente. Não filosofa como outrora e não questiona como deveria. E o nosso adolescente, o nosso jovem adulto, é o brasileiro do futuro. É o engenheiro, o advogado, o médico, o político, do amanhã. É quem irá nos cuidar na nossa velhice, quem nos representará nas eras vindouras. Em suma, com eles nos gerindo e no poder, estaremos lascados.

A culpa é nossa. Nós, formadores de opinião, escritores, professores, gestores públicos e privados, pais e mestres, nós Donquixotes do século XXI, fomos omissos. Da geração de 1970 para cá não soubemos educar nossos filhos, nós lhes entregamos à miséria cultural. Vimos a vaca indo para o brejo e lhe cantamos uma cantiga de ninar paquidérmica e covarde. Nos aboletamos à janela para ver a banda de Chico Buarque passar, e com ela passaram também as nossas esperanças de transformação social através da difusão da cultura, porque somos todos uns acomodados, essa é que é a torpe verdade. Criamos filhos como quem cria amiguinhos. Ou acreditamos que eles já vêem criados das maternidade, assim como os celulares e computadores já saem programados das fábricas e lojas de informática. Há escolas brasileiras públicas que se encontram entre as piores do mundo, em que não há reprovação e onde se capacitam professores que tampouco lêem. É essa gente que orienta nossos jovens, nos ajuda a educá-los, é que vai para a TV ou para os palanques políticos dizer que a educação melhorou e que os índices de analfabetismo estão em queda.

Quixote, quando moribundo, dizia ao seu fiel escudeiro Sancho Pança que nosso mundo era cinza, de chumbo, triste, e que ele ali estava, e ali morria, para alegrar o mundo, transformando todo aquele chumbo em ouro. O literato, o artista, o escritor é, também, um alquimista da própria vida, que doura o mundo com sua mensagem sublime de amor às artes, valorização da educação e fomento da cultura entre nossos jovens, fornecendo-lhes o exemplo de um Quixote incansável em sua batalha inglória contra a os moinhos da miséria cultural.

“Palavreando” é um espaço onde nossos autores disponibilizam seus textos. Fique atento ao Palavra Pronta e nossas redes sociais para não deixar passar nenhum novo artigo como este.

Explore mais

Coluna

Técnicas para discurso político

Aqui nós vamos ensinar alguns truques retóricos muito utilizados em discursos políticos – daqueles que enganam bem os ouvintes menos atentos. Vamos começar com a

Coluna

Origem da palavra Blog

Você está num blog, existem inúmeros, com todo o tipo de assunto: beleza, saúde, bem-estar, culinária, dicas práticas e por ai vai…Mas bem provavelmente você